|
Seleção de ouro
Em visita ao Brasil, o Nobel Peter Agre dispara elogios
aos cientistas nacionais e critica a política americana antiterror
Francisco Alves Filho
Um sujeito bem-humorado, admirador do futebol
pentacampeão do mundo e dos jovens cientistas brasileiros que lutam para fazer
pesquisa, apesar das dificuldades. Assim é o americano Peter Agre, 54 anos, médico
formado pela Universidade Johns Hopkins e um dos dois ganhadores do Prêmio
Nobel de Química de 2003, com pesquisa que esclarece como a água é
transportada através das células do corpo. Na quarta-feira 15, ele esteve no
Rio de Janeiro para seu primeiro compromisso depois da premiação, uma palestra
no 5º Congresso Ibero-Americano de Biofísica. “Fiz questão de vir ao
Brasil. Este País tem jovens cientistas brilhantes, que devem ter as condições
ideais para se desenvolver.”
Agre espera que o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva cumpra a promessa de dobrar o orçamento para a pesquisa. Quanto à política
do governo de seu país, ele é pessimista. “O medo do terrorismo está
dificultando a pesquisa científica. Colegas de outros países têm dificuldades
de ir e vir e um cientista do Texas, Thomas B. Butler,
foi preso porque perdeu algumas amostras de laboratório, o que o governo
considerou prática criminosa”, denuncia. Pelo deslize, Butler pode ser
condenado a 74 anos de prisão. “A manipulação de bactérias
é necessária à pesquisa de doenças, como malária ou catapora.
Os Estados Unidos precisam ter equilíbrio na política de segurança”,
diz. Agre lamenta que um simples caso de extravio tenha se transformado em
assunto de Estado em seu país. “Isso desestimula
quem pretende fazer ciência.”
A descoberta que mereceu o Nobel não vai
provocar mudanças imediatas, mas servirá de base para pesquisas no tratamento
de doenças como falência cardíaca e males renais. Também vai beneficiar a
compreensão do funcionamento das plantas. O cientista visitou o Brasil pela
segunda vez e fez questão de afirmar sua paixão pelo futebol. Chegou a ser
treinador de um time com crianças de cinco
a 14 anos de seu bairro, entre elas seu filho. O garoto ganhou do brasileiro
Marcelo Morales, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio, uma
camisa do goleiro Taffarel. “Por causa disso,
todos no time queriam ser goleiros”, recorda.
Depois de ser premiado com o Nobel, sua vida
mudou. Agre
passou a receber milhares de cartas, e os convites para palestras
se multiplicaram. Ele acha graça de uma recomendação de
sua mulher: “Não diga nenhuma coisa estúpida, a imprensa do
mundo todo estará ouvindo.”
|
|